"Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
sem ver a cara que têm os meus versos em letra
impressa.
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol à chuva-
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa)
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Umas vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão-
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
O campos,m afinal, não são tão verdes para os que
são amados
Como para os que o não são
Sentir é estar distraído."
Fernando Pessoa- Alberto Caeiro- Edit. L&PM POCKET
Nesses versos Pessoa ressalta a brevidade da vida e a maneira de viver calmo, sem esperar grandes expectativas. Caeiro por intermédio de Pessoa fala da vida e do quanto ela é vã e passageira, ressalta que as coisas não acontecem pelo único e simples motivo, porque elas não tinham que acontecer.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
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